sábado, 5 de dezembro de 2009

Saquinho de vírgula

No filme Meu nome não é Johnny, o personagem principal expressa seu descontentamento com a verborragia de um interlocutor quando lhe promete dar de presente um saquinho de vírgula. Talvez assim, usando as vírgulas, a pessoa faça "pausas para respirar".

O saquinho de vírgulas das pessoas que escrevem os textos que eu leio na/ pra Unir é superlotado de vírgulas.

Sabe como eu sei que os meus alunos estão plagiando alguém? Quando não há erros de ortografia ou vírgula no texto que eles me entregam. Acho que começo a entender por que vírgula é um problema tão cabeludo. Os meus alunos ainda não se deram conta de que a escrita não representa a fala. Não se ligaram ainda que existe um abismo entre a fala e a escrita. O que prova que eles acham que podem escrever como falam são as legiões de frases feitas, as expressões idiomáticas e sabedorias populares funcionando como argumentos. Ou seja, usam as ferramentas que têm à disposição para escreverem suas dissertações: o que os outros disseram e dizem por aí. Outra prova que escrevem como falam é a própria estrutura da frase. Raramente usam a ordem direta de sujeito> verbo> objeto(s)> adjuntos (S V O + adjuntos). Para satisfazer questões de relevância, puxam pro início da frase ou as informações circunstanciais de espaço, tempo ou modo (os adjuntos), ou o tópico. Além disso, enfiam o máximo possível de informações entre o sujeito e o verbo. O resultado final são frases com milhares de vírgulas (muitas vezes mal colocadas), que ocupam um parágrafo.

Você quer exemplos? Pra preservar a anonimidade dos autores dos textos que leio (tô me sentindo super padre lidando com confissões, ou enfermeira limpando a bunda dos pacientes), vou inventar alguns exemplos análogos ao que ando corrigindo:

O João, para ele ser alguém na vida, ele precisa, assim como todos nós, saber que a vida é injusta, cruel e madrasta, portanto, para ser feliz, o João, que é um sujeito batalhador, honesto e boa gente, tem que estudar, porque, atualmente, só quem tem instrução nessa sociedade de informação, hoje, terá sucesso, e para ter sucesso é preciso estudar.

João, conhecia muitas pessoas, em universidades, grandes e pequenas, que gostariam de fazer um melhor uso do material didático, que, devido à sua rigidez, era muito pouco maleável, por isso, João desenvolveu, junto com sua secretária, um novo método, capaz de integrar várias competências e habilidades, para ser disponibilizado aos professores, e por conseqüência, aos alunos.

Rapadura é doce, mas não é mole, não.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vermífugo

As pessoas me perguntam se eu perdi alguma coisa na enchente de ontem. Perdi tempo. Ontem foram 4 horas limpando a casa, os gatos e a mim. Hoje foi a manhã, lavando roupas, tapetes e sapatos. Outras coisas me custaram tempo e neurônios: acionei o seguro (na primeira enchente, eu ainda não tinha assinado o contrato) e comprei vermífugos pra mim e pros gatos.

Olha quanta embalagem. Shaoran toma o dele em forma líquida, através de um seringa de plástico. Daqui a duas semanas repete a dose. No total, Akari vai tomar dois dos quatro comprimidos. Eu vou tomar dois comprimidos X e um Y hoje, depois um Y por mais dois dias consecutivos. E volta tudo na semana seguinte. As embalagens dos gatos são econômicas no sentido de abrigarem o número suficiente de comprimidos necessários para dois tratamentos. No meu caso, cada comprimido vem com uma embalagem e bula e plástico e alumínio próprios. Um disparate.

De novo

Sabe quando você sai do seu local de trabalho pensando quanto você vai ter que trabalhar em casa? Sabe quando você vem chegando perto da sua casa e tem a sensação de que algo está terrivelmente errado? Sabe quando você acha que vai passar a noite corrigindo redação e se vê obrigado a se engajar em quatro horas de faxina?

Não sei por onde a água entrou dessa vez. Eu tava na Unir, onde só choveu pouquinho. Imagino que muita água tenha saído dos ralos, porque havia mais lama no chuveiro que no resto da casa. Não chegou a subir muito dessa vez, mas cobriu o chão todo. Agora tudo cheira a Cândida.

Como se levanta uma casa?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Okupa y resiste

Semana passada o cineclube foi no auditório do Núcleo de Educação, longe dos blocos das salas de aula. Apesar do recado deixado na porta da sala invadida na semana anterior, redirecionando os interessados, Paulo foi o único que assistiu ao filme Cine Paradiso. Eu estava na condição de revisora alucinada.

Hoje Paulo e Guilherme decidiram ver o filme naquela sala de sempre. Eu fui contra, porque eu temia mais um embate com a professora que gosta de dar aula no ar condicionado e para tanto atropelou o cineclube. Ofereci o auditório (eu tenho o poder de fazer reserva: pois não, professora), eles disseram que iam buscar um documento que lhes dá o direito de usar a boa e velha sala perto da cantina. Não coseguiram o documento. Paulo me pediu aquele relatório que eu tinha feito e pedido pra galera assinar. Lembrei que aquele papel era só um repúdio à atitude pouco civilizada da professora que nos tinha expulsado da sala, e não lhe garantiria a sala. Notamos que na relação das assinaturas faltava a de maior peso: a do meu superior. Entreguei o papel pra ele mesmo assim e fui procurar o meu chefe.

Conversei com o meu chefe sobre questões acadêmicas e pedi que ele me acompanhasse à sala que os meninos estavam ocupando com o filme V de Vingaça. Ele me acompanhou de bom grado e sentamos pra ver o filme. A princípio só queríamos esperar a professora entrar, ligar as luzes e arrancar tudo das tomadas de novo. Reparei que os meninos tinham empilhado todas as mesas à la Edukators (Die fetten Jahre sind vorbei). Meu chefe estava sentado perto da porta que tem uma janelinha. Percebemos uma certa movimentação ruidosa do lado de fora da porta às 19:00, mas não fomos incomodados. Tenho cá pra mim que a pessoa sentada ao meu lado serviu de escudo pra nos proteger de mais uma expulsão.

Na discussão depois do filme, todos lembramos de uma frase de V: se você não reagir, você perde. A foto acima foi feita em Barcelona, num tour pelas 'casas okupa'.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Longe

Cada um foi prum canto,
se espalhar um 'cadinho.

Cada um se arranjou
de cada jeito...

Cada um foi correr atrás
do seu cada qual.

Nenhum deles foi esquecido
Todos eles continuam sorrindo
Na minha memória
que embeleza cada um.

Eu fui pra longe,
eles ficaram lá longe.
Mas essa distância
só é geográfica.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Caminhos de Argus Caruso

Eu vi Argus Caruso pela primeira vez num Sesc, em Santos. Ele deu uma palestra sobre a volta ao mundo de bicicleta que fez em 3 anos. O projeto de volta ao mundo se chama Pedalando e educando e consistiu na interação do cicloturista com algumas escolas brasileiras. Ele mandava imagens, relatos e números dos lugares pelos quais ia passando pela internet. As crianças aprendiam através da vivência dele. Era um curso à distância muito mais bacana que estes que estou revisando. História e Geografia estavam sendo vividas por alguém que se movia lentamente, sobre duas rodas, vivendo da hospitalidade daqueles que encontrava pelo caminho.

O livro, disponível nas lojas SESC, é uma obra de arte. Aproximadamente três quartos do livro são fotografias de pessoas, casas, paisagens, detalhes que prenderam a atenção do viajante. Há pouco texto, mas o que há ali foi muito bem lapidado. O carteiro que me entregou o livro não tinha noção do presente que o pacote continha. Fazia tempo demais que eu não lia bons textos, daqueles que te transportam prum outro lugar. E quando você volta, sente uma pontinha de saudade daquilo que nunca viu.

sábado, 28 de novembro de 2009

Akari & Shaoran

video

Shaoran, o equilibrista


Shaoran precisa aprender a ser gato. Eu não ajudo muito, porque às vezes o trato como se fosse um macaquinho. Ele fica no meu ombro numa boa, passeia de um lado pro outro e às vezes se apóia no encosto da cadeira. Assim como Shalimar, vai desaprender a arte do trapezista quando crescer.

Semana punk rock

O mato aqui de casa está alto, a pilha de roupa suja também, assim como a pilha de redações dos meus alunos. A casa está suja e a comida na geladeira acabou. Mesmo assim eu sigo, firme e forte, entregando um livro revisado por dia. Só sei que hoje é sexta porque o computador me diz isso. Isso significa que tenho só mais dois dias de escravidão pela frente. Daí os livros serão mandados pra gráfica.

Saio pouco de casa, e quando saio é pra ir pra Unir.

Shaoran apanhou muito, mas ainda não aprendeu que não deve brincar com cabos nem comer a ração da Akari. Tenho dormido pouco, porque os horários de sono dos gatos não batem com os meus. Acordo várias vezes com o Shaoran rastafarizando o meu cabelo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Três bicicletas na Unir

Já somos três loucos que vão de bicicleta pra Unir!

Quando Natanael me deu o telefone dele pedindo pra eu lhe avisar quando fosse embora pra irmos pedalando juntos, soube que eu não era mais a única que vai de bicicleta pra universidade. Na volta pra casa, descobrimos que moramos no mesmo bairro.

Hoje o Paulo (do cineclube) foi de bicicleta (uma daquelas de praia, com o guidão alongado) pra Unir.

Eita, vai que a moda pega!

domingo, 22 de novembro de 2009

Tenho poder

Como professora de Produção de Textos, tenho poder. Tenho o poder de decidir que os meus alunos não escreverão redações sobre liberdade de expressão, o certo e o errado, a mulher na sociedade brasileira e outros temas abstratos.

Posso pedir que escrevam sobre temas concretos e atuais que me interessam (poluição, meio ambiente, lixo, minha saúde). Posso informá-los a respeito do tema antes de cobrar que argumentem sobre ele. Foi o que eu fiz.

Eu não pedi que escrevessem sobre o aquecimento global e a emissão de poluentes por automóveis. Não pedi que escrevessem sobre as vantagens do uso da bicicleta. Tenho consciência de que, indo pra Unir de bicicleta, sou um exemplo de que é possível não poluir para se deslocar. Não espero que façam o que eu faço, porque imagino que 13km sejam mais longos de Barra Forte do que de mountain bike.

Também não pedi que escrevessem sobre alimentos industrializados, porque sei que eles reconhecem comida (tanto é que a consomem) naquelas embalagens plásticas, coloridas e brilhantes.

Pedi que escrevessem sobre sacolinhas plásticas. Forneci informações sobre os números de sacolas plásticas produzidas anualmente no Brasil (1 bilhão) e no mundo (500 bilhões), a média mensal de consumo de sacolinhas plásticas por cidadão brasileiro (66 sacolas) e o número de anos que uma sacola leva para se decompor (aproximadamente 300). Falei de reciclagem e reutilização e apontei que apenas 0,6% das sacolas plásticas é reciclado. Notamos que a maioria das sacolas plásticas vai parar no lixo e lembramos que a nossa cultura de lixo é muito precária. Não só porque Porto Velho não tem coleta seletiva de lixo, ou porque as pessoas daqui nunca ouviram falar em compostagem, mas porque existe muito lixo solto nas ruas. Falei da minha casa que alagou (provavelmente) em função do entupimento do esgoto por plásticos. Falei também de países que aboliram as sacolas plásticas justamente por causa das enchentes, além de outros países que passaram a cobrar pelas sacolas plásticas.

Tenho o poder de esclarecer os meus alunos sobre a sua condição de poluidores. Tenho o poder para fazer com que escrevam textos argumentativos em que o objetivo é mudar a política de uma rede de supermercados. Espero ter o poder de fazer com que rejeitem sacolas plásticas de agora em diante.

Minhas fontes:

Não às sacolas plásticas
Sacolinhas plásticas em números (e que números!)
Saco de plástico
As sacolas de plástico devem ser substituídas?
Saco é um saco

sábado, 21 de novembro de 2009

Mamãe coruja

Eu acho o Shaoran muito lindinho.
A melhor oportunidade para fotografá-lo é quando está sonolento ou dormindo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Madrasta

Shaoran é o mais novo morador da minha casa. Tenho mais um gato com nome de personagem de anime japonês.
Quando ele ronrona, parece um motorzinho. Quando brinca, até parece que come pilha. Quando recebe carinho na barriga, levanta os braços. Quando é enxotado, sempre volta ao local do crime. Quando mia, seu chamado ecoa nas paredes e faz a Akari ter espasmos.
Trouxe o Shaoran pra fazer companhia pra Akari. Ela passava alguns dias da semana sozinha em casa, ouvindo os gatos feios e malvados lá fora e no forro da casa. Fora isso, miava mais do que eu considerava normal. Achei que ela ficaria feliz com um amiguinho. Imaginei que ela vivenciaria uma maternidade postiça, já que não terá nunca filhotes.

Mas ela se sente ameaçada pelo machinho da casa. Não chega a atacá-lo, mas faz cara de cobra (como se diz 'fauchen' em português?). Ele a imita, o que a deixa mais irada ainda. No primeiro dia, quando sentia seu cheiro de bebê em mim, não me deixava tocar nela. Seguindo as instruções da Mônica, botei uma gota de baunilha no pescoço dele. Ela se interessou pelo cheiro, mas não conseguiu diminuir a distância entre eles. Agora já posso encostar na Akari, madrasta enciumada.

Fico impressionada como ela é grande e bonita e ele é miúdo e tem cara de ET.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Expulsos no grito

Me sinto parte do cineclube que acontece na Unir todas as quartas-feiras, das 17:30 em diante. Dois alunos, Paulo e Guilherme, tomaram a iniciativa de organizar os encontros semanais em que um filme é exibido e depois discutido. Já usei o espaço do cineclube para mostrar aos meus alunos de Produção de Textos como o paralelismo é um elemento de coesão interessante para um texto, quando pedi que o cineclube passasse o filme 'Estômago'. Semana passada, conduzi a discussão sobre o filme 'A Onda'.

Fico feliz ao notar que cada vez mais alunos participam do cineclube e ficam para a discussão que acontece após a exibição. O cineclube está se transformando num espaço de trocas culturais. Aprendemos uns com os outros, nos diálogos que acontecem depois dos filmes. Fico contente de ver que Paulo e Guilherme estão envolvendo também professores para conduzirem as discussões. Hoje, o filme exibido foi 'Onde sonham as formigas verdes' (1984), do Werner Herzog. Um professor de antropologia tinha sido convidado para encaminhar a discussão no cineclube, mas não pode vir.

O filme se passa na Austrália árida e trata de uma tribo aborígene que resiste a uma compania mineradora inglesa que procura urânio. Os aborígenes compreendem a terra, cultuam o solo que lhes é sagrado. O homem branco explode a terra à procura de riquezas em que vê a promessa do progresso. Os nativos sentam-se no chão para impedir que os brancos acordem as formigas verdes com os seus tratores e dinamites. Um homem branco quer passar com o trator em cima dos pretos, outro encaminha a disputa pela terra por vias burocráticas e conduz a discussão à Corte Suprema.

Aí então a coisa desandou. Uma gorda histérica apareceu na porta da sala dizendo que ia dar aula e que era pra gente sair. A aula dela começava às 19:00 e já eram 19:10 e tinha tanta sala vazia, que a gente fosse pruma outra sala, porque a gente tava na sala dela. A histeria dela era contagiante. Meu corpo todo tremia. Todos gritavam. Ela chamava todos de 'meu anjo' e 'bem', o que piorava ainda mais a nossa revolta. Ela acendeu as luzes, fez seus alunos entrarem na sala, afirmando que os alunos dela queriam ter aula, que aquela era a sala do 4. período de Administração, tava escrito na porta. Foi até a frente da sala e arrancou todos os equipamentos das tomadas: computador, datashow e caixas de som. Assim: arrancou da tomada. E continuava gritando que não era pra gritarem com ela, que ela estava sendo desrespeitada, que ela já era professora há 17 anos e que o que ela fazia era coisa séria. Ela era professora. M., da Administração. Paulo apontou pra mim, dizendo que ser professora não lhe dava nenhum status, afinal ele também tinha uma professora do lado dele. M. olhou pra mim e eu tremia, de olhos esbugalhados, tendo dificuldades para coordenar a respiração. Perguntamos por que só queria usar a sala agora, no fim do semestre e onde estava tendo aula todas as outras quartas-feiras em que nós estávamos assistindo filme naquela mesma sala. Ela repetiu que aquela era a sala dela. Uma aluna disse que a sala em que eles estavam tendo aula até então estava com o ar-condicionado quebrado.

Paulo, enganchado no filme que foi interrompido à força, queria protestar como aqueles que tinham chegado antes: ficando. Guilherme já estava desmontando as coisas, vendo que o público já tinha ido embora e que só tinham ficado as figuras marcadas do DCE e a professora com cara de adolescente altamente estupefata. A gorda histérica levantou o braço com o indicador esticado e nos jogou pra fora. Saia da minha sala! ela gritou.

Ficamos encostados na parede da sala dela, nos espantando com a surrealidade dessa tomada de posse. Conversamos com a aluna que afirmava ter avisado o Paulo que usariam aquela sala. Ela não entendia por que não passamos o filme mais cedo, por que não fomos pra outra sala. A gorda histérica apareceu na porta da sala e chamou essa aluna pra dentro. A moça foi.

Paulo, Guilherme, Ricardo e Daniel do DCE e eu decidimos averiguar se aquela sala tem dono. A sala está no bloco de Letras, Paulo e Guilherme são das Ciências Sociais/ História e a M. é da Administração. Procuraremos garantir uma sala por meios burocráticos e manifestar nossa revolta com essa professora descompensada.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rotatórias

O meu caminho para a Unir passa por duas rotatórias: a do Roque, que dá acesso à BR 364 sentido Cuiabá, e a da Embratel, que dá acesso direto à BR 364 sentido Acre. Ambas são um nó no trânsito. As pessoas chegam nela, param e olham. A fila de carros parados na esquerda é impressionante. Quando o cidadão chega na boca da bola, mete o veículo na roda a qualquer hora e ouve buzinadas iradas.

As duas rotatórias estão em obras. Na do Roque estão construindo uma elevação, que vai ser tipo uma ponte. A BR será levantada, mas a dinâmica da rotatória não mudou. Na da Embratel procederam de maneira diferente. Cortaram a rotatória no meio, e agora a Campos Sales atravessa a rotatória. A BR continua fazendo a bola. Alguns dizem que a BR vai passar por baixo, outros afirmam que vai passar por cima. Mas como havia bifurcações e confusão demais, colocaram faróis na rotatória cortada. E o farol é de 4 tempos, como todos os semáforos em cruzamentos de avenidas com vias de dois sentidos nessa cidade. A sinaleira não é sinal automático de civilidade, porque os motoristas que detestam esperar ocupam o acostamento enquanto a luz não fica verde.

As duas rotatórias são espaços de interação humana. Ali coexistem motoristas, ciclistas, pedestres, peões de obra, guardinhas de trânsito. Na rotatória da Embratel tem ainda o ponto de ônibus, por onde passa o ônibus que vai pra Unir. Às vezes reconheço alunos esperando lá no banco do bar que fechou faz um mês - mas continua funcionando como ponto de ônibus. Hoje, um cara apontou uma câmera fotográfica pra mim, enquanto eu passava de bicicleta. Não sei se vou sair no jornal ou se estão planejando o roubo da Amarilda.

domingo, 15 de novembro de 2009

O cabeludo e a Morte

Essa foi o Berg que contou, enquanto esperava o cimento secar. Estava comentando o homem que era dono da FIMCA (uma faculdade particular) que comprou a UNIRON (outra particular). No dia em que assinou o contrato e pisou na rua pra entrar no carro, caiu duro pra trás. Morreu do coração. Mas quando a morte vem, não tem quem lhe escape. Conhece a história do cabeludo e da Morte? Pois é assim:

Era uma vez um cabeludo que fez um pacto com a Morte. Ele disse pra ela que queria ser o homem mais rico do mundo. A Morte disse que lhe concederia o desejo, mas com uma condição. Tudo bem, na manhã seguinte o cabeludo amanheceria podre de rico, mas dali a um ano a Morte viria lhe buscar. Se passasse da meia-noite do dia que a Morte ia vim, o cabeludo tava livre.

O cabeludo viveu bem nesse ano que ele foi rico. Um dia antes da Morte cumprir o pacto, o cabeludo cortou o cabelo. Passou máquina zero, pra se disfarçar e a Morte não reconhecer ele. Na noite que a Morte ia voltar pra lhe pegar, ele deu uma festa pra cidade toda. E todo mundo veio pra festa do cabeludo, inclusive a Morte. Ela ficava procurando o cabeludo, e cadê esse cabeludo? E olhava no relógio e faltava dois minuto pra meia-noite e nada do cabeludo. Não tô achando esse cabeludo safado, quer saber? Vou levar esse careca aqui mesmo.

E levou o (careca) cabeludo.
É, dona Lou, quando a Morte vem, não tem quem lhe escape.

sábado, 14 de novembro de 2009

Enquanto ele não vem

Pedi que a imobiliária me indicasse um outro pedreiro além do Berg, porque ele vive esquecendo de mim e raramente vem quando diz que vem. Ainda tenho uma goteira monstruosa, uma caixa d'água pra trocar, um cano e uma torneira pra instalar. Mas a goteira é mais urgente. Me recomendaram o Zezinho.

Liguei pro homem ontem, ele disse que viria depois das 17:00. Choveu a partir das 16:30 e o Zezinho não veio. Liguei pro Berg hoje de manhã, porque tínhamos combinado sábado cedinho. Prometeu que viria amanhã. Liguei pro Zezinho, que disse que daria um pulo na imobiliária pra pegar uma escada e viria pra cá. Às 14:00 ele ligou pra mim, dizendo que assim que fosse liberado, viria pra cá. Não veio até agora e não vem mais, porque está escuro e ventando forte.

Quando eu ainda tinha esperança que o Zezinho viesse, comecei a fazer um arquivo pras minhas contas e recibos. Tenho a impressão que na papelaria eu só acharia um arquivo assim de plástico.


Dessa vez não é falta de ocupação, não: tenho milhares de redações horríveis esperando na minha mesa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Massa

Equitéria entrou na sala e me trouxe essa manga no intervalo da nossa aula. Enquanto ela me dava a manga, Terra ficava na porta, dizendo que a Equitéria era uma puxa-saco. Agradeci pela manga e me espantei com sua consistência. Perguntei se tava madura mesmo, porque tava muito dura pros meus parâmetros de manga. Tairine levantou a cabeça da mesa e me explicou que essa manga era assim mesmo. Essa é a manga massa. Deixei a manga na mesa e continuei a ler o livro que estava no meu colo. Nani veio e sentou na mesa da manga e começou a brincar com ela. Avisei que eu ainda pretendia comer aquela manga, e que ela não precisava amaciar a fruta. Foi mal, professora.

Quando comi a manga, fiquei em dúvida. Tairine tinha dito massa ou maçã?

Caro leitor, percebeu que as pessoas nativas do norte têm nomes incomuns e que o meu nome agora é 'professora'?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Berg

Ontem, quando liguei de manhã pro Berg e perguntei se ele estava a caminho, ele me disse - sorrindo, eu percebi - que tinha esquecido de mim. Prometeu que viria hoje.

Perguntei como ele traria tijolos e cimento, ele disse que cataria uns tijolos por aí. Não gostei da idéia e fui na loja que vende telhas e tijolos. Perguntei se entregavam 15 tijolos, porque eu só tenho uma bicicleta, então fica difícil. O vendedor olhou pra minha bicicleta e anunciou que faria uma simulação. Colocamos 9 tijolos na cesta de trás e 3 na cesta da frente da Laranja Mecânica. Fiquei impressionada como coube tanto tijolo na bicicleta e como tijolo é barato. Avisei ao Berg que tinha arrumado tijolos e marcamos 8:00.

Hoje de manhã, às 9:00, liguei de novo pro Berg. Celular desligado. Mas ele veio e levantou muretas nas portas. E os meus 12 tijolos novos não foram suficientes. Tivemos que usar alguns daqueles que sustentavam as minhas mudas.
Esse é o Berg. Cê daria 60 anos pra ele?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Estou bem

A geladeira voltou a funcionar, Berg disse que vem amanhã pra levantar umas muretas, lavei a casa, os tapetes, sapatos e ainda faltam as roupas. Ainda preciso entender por que estou sem internet em casa e resolver isso. É o segundo dia que trabalho sem parar.

Katastrophenfest

Tudo o que segue foi escrito em casa, logo depois da desgraça; e postado na lan house no dia seguinte, porque fiquei sem internet.

Agora eu sei o que é ter a casa alagada. Agora eu conheço o gosto do desespero e a sensação de impotência diante da água que não pára de entrar. Agora eu sei que a água que entra traz lama, papel de bala, embalagens de catchup do Mc Donalds, muitas folhas, galhos, bitucas de cigarro e mais lama. Agora eu sei por onde a água entra na minha casa e por que ela não sai. Agora tenho noção do quanto ela sobe e o que ela arrasta. Meu butijão de gás foi tombado; a caixa d’água nova que estava fora, esperando ser instalada pelo Berg, foi parar no meio do jardim; uma lata de tinta que me servia de composteira foi parar no portão.

Não sei se a geladeira vai voltar a funcionar, se a furadeira - que tava no chão - vai ligar de novo. Não sei quando o sofá vai secar. Não sei quanto de água ainda tem dentro da caixa d’água (já lavei o chão da casa e a minha pessoa), e ainda preciso lavar toda a minha roupa suja que tava no chão e ficou enlameada. Não sei quando os meus braços vão parar de doer. Não sei quando vou limpar embaixo e dentro dos móveis. Não sei que coisas vou achar quando terminar de limpar a casa: o shampoo apareceu atrás do sofá, a tigela de comida da Akari passou por ela enquanto ela dormia na minha cama. Não sei quando o cheiro de lama vai se despregar da casa.

Vamos à estória. Eu tava ouvindo a chuva lá fora, a goteira no balde aqui dentro e corrigindo redações horríveis dos meus alunos - impressionada como cada um tem a sua ortografia pessoal e nenhum deles tem uma opinião própria- quando ouvi os gritos da minha vizinha me chamando. Havia muita urgência na voz dela, quase uma ponta de descontrole do timbre. Não cheguei até porta. Vi a água invadindo a casa. Desliguei o computador, tirei os panos que estavam ao redor da pocinha gerada pela goteira e comecei a absorver água com um pano. Daqui a pouco eu estava enchendo o balde e jogando a água na pia. A água não descia. Olhei pela janela e vi o Rio Madeira dentro e fora da minha casa. A água lá fora estava mais alta que aqui dentro. Salvei as fotos da estante, coisas da escrivaninha, o pacote de arroz, desliguei a geladeira e vi que a Akari tava segura.

Entre 10:30 e 15:00 eu joguei baldes de água pela janela. As folhas, galhos e centopéias ficavam na tela. Eu ouvia crianças gritando de alegria, adultos brigando, gente gritando. Reparei que o nível da água estava baixando devido à minha atividade incessante. Pra ajudar, a água não entrava mais pela porta da cozinha. Abri a porta e vi que a água fora estava mais baixa que a mureta da soleira da porta. Sentei numa cadeira, para descansar as pernas e a coluna, e continuei jogando baldes de água pra fora. Notei que a água agora fluía pra rua. O esgoto deve ter desentupido com a pressão. O nível da água baixava fora de casa, mas dentro, a piscina continuava na mesma. De fato, a minha casa é uma piscina. Há uma mureta na porta da cozinha e fizeram uma lombada na frente da casa, no quintal. A água que tinha entrado pra depois da lombada ficava ali, represada. Achei a vassoura na grade do portão e me pus a varrer a água pra cima da lombada. O chão da minha casa é bem irregular, então cada cômodo manteve a sua poça particular (de até dois dedos de profundidade) mesmo depois de toda a água ter saído pela porta. Demorei mais duas horas para limpar o chão da casa. Haja lama! Akari decorava o chão de patinhas marrons, miava de fome e sede e não entendeu quando virei o sofá de ponta-cabeça. Fiquei sem almoço e agora tenho medo do som da chuva.


liguei pro Berg. Espero que venha amanhã, me ajudar a pensar numa solução pra futuros alagamentos.


domingo, 8 de novembro de 2009

Luzes da usina


Já era tarde. As andorinhas já tinham pousado e o sol já tinha se posto atrás do Rio Madeira. Deu pra fotografar as luzes da usina e só.

Serigüela

O pé de serigüela está quase do meu tamanho. Era um toco de árvore quando eu cheguei, e com o tempo foram brotando uns galhos.

Passei o dia no jardim, arrancando matos. Acho que desmatei um terço de gramas altas, plantinhas com carrapichos, com espinhos e com florzinhas minúsculas. Agora as minhas mãos precisam descansar 3 dias antes de voltarem ao trabalho braçal.

sábado, 7 de novembro de 2009

Covarde

O fato se deu faz um tempo já, mas só agora estou refletindo mais detidamente sobre ele. Aconteceu que numa noite a Akari tava miando diferente e querendo se embrenhar nos fios de telefone, roteador, estabilizador, computador e tal. Fui impedir que ela entrasse atrás da estante e dei de cara com uma tarântula. Era do tamanho da minha mão aberta.

Meu coração disparou. O corpo do aracnídeo era pesado e grande, suas patinhas peludas. Como eu já vi a Akari caçando e comendo aranhas pequenas, temi que ela quisesse brincar com essa também. Peguei o rodo, mirei a ponta do cabo na aranha e matei a bichinha. Recolhi seus restos mortais e, ofegante, sentei no chão. Ainda não tinha sofá e eu costumava ver filmes no chão mesmo. A sensação de pele pinicando me acompanhou durante as duas horas que se seguiram ao encontro fatal com a tarântula. Depois passou.

Todas as noites eu rego as plantas que não tomam água da chuva (quando chove). Já conheço a aranha que fica paradona lá nos potes que contêm as plantas. Não tenho medo dela e a deixo em paz. Numa noite, no entanto, reparei numa bem encorpada debaixo do tanque. Podia ser uma tarântula criança-quase-adolescente. Não matei essa também, porque confio que ela tem todo o mundo (exceto a minha casa) pra explorar.

E é aí que eu chego à conclusão de que matei a primeira tarântula por covardia. Tive medo da criatura e a matei. Se eu cruzasse com ela num espaço aberto, não a mataria. Nem mesmo se fosse no lado de fora da casa. Mas ela estava dentro das paredes que eu alugo.

Quando a próxima aparecer aqui dentro de casa, tentarei conduzi-la pra fora de casa, ao invés de tirar-lhe a vida.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Knallrot

Eu não ia comprar um sofá. Eu ia sondar preços, sentir a textura de estofados, ver as cores, e o principal: negociar prazos de entrega. Pois e não foi que era o meu dia de sorte?

O gerente das entregas estava na loja, (des?)montando um móvel e me ouviu conversando com o vendedor. O gerente das entregas disse que amanhã até meio-dia entrega com certeza absoluta. Não botei fé. Jogou as cartas na mesa: o caminhão tá vazio, os homens tão sem nada pra fazer, se tu quiser, a gente bota esse sofá no caminhão agora e tu ainda vai junto de carona. Mas eu tô de bicicleta. Não tem problema, o caminhão tá vazio.

Aceitei. E descobri que 1 sofá significa um jogo de dois sofás: um de 2 lugares e outro de 3. Vim de caminhão pra casa.

Quando Akari viu os sofás vermelhões, logo tomou a defensiva. Foi cheirando todo o ar até chegar perto deles. Esperneava quando eu a colocava no colo, sobre o sofá. Agora já arranha o estofado com a maior intimidade.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

XV Semana de Letras

Todos os resumos de comunicações deveriam ser mandados para mim (Lingüística) e Heloisa (Literatura). Eu recebi 12 até o fim do prazo e depois mais 3. Heloisa só recebeu 3. Ou a Semana foi mal divulgada ou a galera não produz pesquisa aqui.

O coordenador da Semana de Letras pegou malária e saiu da cama ontem. A programação da Semana vai se definindo enquanto acontece. Meu chefe diria: a gente lança a flecha, sai correndo e tenta alcançar a danada com o alvo. Amanhã eu sei onde vai acontecer, mas depois ainda está em aberto. A abertura, hoje, foi na Uniron (uma particular daqui, que fica dentro do Shopping).

Ao mesmo tempo em que acontece a Semana de Letras, dicutindo inter-, multi- e transculturalidade, acontece também a Semana de Geografia, que trata dos mesmos temas que os nossos trabalhos.

Márcio Souza deu sua palestra hoje e desconfio que eu vou reconhecer tudo o que ele falou no livro "História da Amazônia" que comprei. Outro ponto alto da Semana é a palestra do Sírio Possenti, vindo diretamente da Unicamp com o seu tema predileto: humor e Análise do Discuro.

Eu vou ministrar um minicurso de 6 horas em 2 dias. Vou falar de um tema que considero interessante: afasia. Tenho a impressão que muitas pessoas têm afásicos na família e não sabem bem como classificar esse membro da família. É louco? Gagá? Desaprendeu tudo? Enfim, espero muito que me arranjem um data show.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Churrasco

O barulho estridente do telefone me arrancou da cama numa manhã nublada de domingo. Não tinha tido um sono tranquilo devido aos fogos de artifício que a vizinhança estourou de madrugada. Uma voz animada me disse que era Ana Carolina e me convidou prum churrasco com os alunos. Se eu concordasse em ir, viriam me pegar em 15 minutos. Perguntei que horas eram. 9:15. Perguntei onde seria o churrasco. Na Adunir. O R retroflexo finalmente me revelou quem era a pessoa que estava do outro lado da linha. Ok, eu vou.

Adunir é o nosso sindicato, e tem uma unidade campestre, que é essa. Nela, podemos fazer festas e não pagamos pelo espaço.
Vi poucos cajus vermelhos aqui. Vi muita gente comendo caju amarelo.
Tem duas piscinas pequenas, mas o tempo não estava lá muito convidativo pra água fria.
Myiuki e eu jogamos sinuca por um tempo, mas foi difícil pedir às crianças - com carinho - que não mexessem nas bolas coloridas, que não tirassem bolas da gaveta e as colocassem na mesa enquanto disputávamos uma partida partilhando o único taco.

Daí eu me cansei de ouvir forró alto demais e fui caminhar pela estrada. Demorou muito para eu deixar de ouvir o som da música que vinha das chácaras enfestadas. Demorou muito para eu conseguir ouvir o som dos passarinhos, do vento nas folhas, dos grilos no mato. Demorou muito até eu conseguir me concentrar no som dos meus passos.
Quando voltei pro churrasco dos químicos (professores e alunos), já estavam arrumando tudo. Wilmo conduziu a vassoura, Myiuki coordenou a louça e Ana Carolina encaminhou o lixo.
Ana Carolina está fazendo essa cara porque não achou legal ser fotografada enquanto fazia "trabalho sujo". Expliquei que também fotografei a Myiuki lavando louça e o Wilmo varrendo. O sorriso que ela abriu então, eu perdi de fotografar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Die Welle

Quem já viu o filme sabe que não se trata de uma nova onda de nazismo. Quem já leu a respeito sabe que o filme tem um predecessor americano de '81 chamado The Wave, que é baseado num livro, que relata os fatos acontecidos num experimento em '67 na Califórnia. Em Palo Alto, um professor vivenciou um experimento chamado The Third Wave com os seus alunos.

A pergunta central do filme Die Welle é se ainda hoje regimes autocráticos (facistas) são possíveis. A humanidade já passou pelo III Reich, Mussolini, Franco, Stalin, Mao, Getúlio e tantos outros ditadores. No entanto, a idéia de um grupo disciplinado tomando o poder parece atraente.

E é aí que Die Welle fica interessante. O grupo de alunos que integra Die Welle se veste de maneira igual (camisa branca e calça jeans), tem um logo (a onda), comunga um cumprimento (símbolo da onda feito com o braço direito), segue uma disciplina (pedir a palavra, levantar-se quando fala) e um líder (o professor). Esse grupo de alunos tem apenas Die Welle. Eles não têm uma ideologia, uma agenda, um programa de ação. Não pretendem exterminar, salvar ou revolucionar nada. Quando os alunos escrevem sobre a Welle, relatam que finalmente fazem parte de um grupo, que não são mais vistos como 'o turco', o 'ossi' (alemão oriental), 'o riquinho que não tem amigos', 'a mocinha insegura na sombra da amiga', 'o nerd que tenta ser amigo mas não é cool'. Todos são iguais agora e fazem parte desse coletivo que é facilmente identificável.

Não sou socióloga para saber em que momento da história os cidadãos passaram a indivíduos. Não tenho dados sobre o número de pessoas jovens que vivem sozinhas (eu sou uma delas, mas não sei do resto, só sei de mim). Não sei até que ponto a individualidade precisa chegar para se transformar em egoísmo e depois solidão. Fazemos parte de uma sociedade de consumo, não admitimos mais dividir/reutilizar/reciclar coisas. Compramos, cada um por si, produtos novos que descartamos depois de um tempo. Estamos gradualmente perdendo o contato com a Natureza e o Coletivo.

Lembro de uma propaganda para a tecnologia wireless que me impressionou muito. A câmera mostra o sol na linha do horizonte. O horizonte é desenhado pelo contorno de uma montanha em cima da qual se estende uma corrente de pessoas que se dão as mãos. Como a fonte de luz está atrás das pessoas, apenas vemos vultos pretos. A câmera se aproxima lentamente e - de uma vez - as pessoas soltam as mãos. A música entra, triunfante, e um sorriso beatificado enfeita o rosto de cada um. Uma voz de fundo anuncia: wireless.

A propaganda glorifica a independência (do cabo) e autonomia/ mobilidade (da pessoa). Não lance raízes, não se prenda, seja móvel e independente.

Pois é, somos seres sociais. Nos sentimos acolhidos num grupo. Não vejo Die Welle como um filme que apenas mostra um experimento que fugiu do controle e te força a pensar sobre regimes autoritários e a fragilidade da democracia. Vejo o coletivo como ímã para os indivíduos e motor que dá força para ações estúpidas que os indivíduos não conseguem justificar depois.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Frustrações no banco

Na porta das agências dos bancos há um aviso sobre o horário de funcionamento. Agora, em virtude do horário de verão adotado em Brasília (e o ponto de referência para horários de banco é Brasília), os bancos no Norte passam a funcionar das 8:00 às 13:00.

Além de funcionar uma hora a menos que nos outros estados, fecha muito cedo.

Abro a porta e me deparo com um mar de gente. Passo a porta giratória e penso que estou na Índia. Tem tanta gente, que nem consigo identificar onde se pega a senha ou onde é o caixa.

Volto para a sala dos caixas eletrônicos. Cinco caixas de madeira ocupam a sala. Imagino que sejam novos caixas eletrônicos. Já estão lá, na mesma posição e fechados, faz duas semanas, no mínimo.

Fora das caixas de madeira, há 7 caixas eletrônicos. Dois são para depósitos, um é para cheques, três são para saques e o último está desligado. Dos caixas de depósito, um não imprime. Dos caixas para saque, um apresenta defeito no botão direito de cima, do outro acabou o dinheiro.

Há uma placa avisando que os clientes devem formar fila única, mas há duas filas para saque até acabar o dinheiro de um caixa eletrônico. Aí todos fazem fila única para operarem o único caixa que cospe dinheiro.

Os analfabetos dependem dos funcionários que usam camisetas amarelas e são requisitados por pelo menos 3 pessoas ao mesmo tempo. Toda vez que a tela muda, cutucam o funcionário que está atendendo um aglomerado de gente em outro caixa.

Pacientes, lemos as mensagens que aparecem na tela dos outros:
Senha não confere
SALDO INSUFICIENTE
Imprimindo próxima página.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Contorcionista

Ela tava dormindo concentrada, quando um barulhinho de asas de inseto a despertou. Seguindo o bichinho, se meteu entre a grade e tela.




Sozinha, não conseguiu voltar pra dentro de casa. Tive que sair, dar a volta na casa e lhe dar apoio para os pés. Neste momento, está caçando uma mariposa que vive pousando perto do computador. Estou numa zona de alto risco!